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Kansun inicia como uma singela, e até simplória, história infantil, com o nascimento de cinco cãezinhos vira-latas. Um deles é Kansun, que logo passa a adotar comportamento diverso dos seus, deixando-se levar por uma imensa curiosidade.

Justificando o título do primeiro capítulo, A Indignação, ele se mostra incapaz de se adequar à vida rotineira e monótona, em que a subsistência é o maior, senão único, objetivo de vida, acalentando um sonho de descobertas e de aventuras. Algumas tentativas iniciais frustrantes não são o bastante para refrear seus anseios e, já crescido, Kansun deixa o terno convívio com a família para lançar-se na busca de seus sonhos, embora sequer os tenha claramente definidos.

Mas, sonhar pelos caminhos de Kansun é viver uma grande aventura, é banhar-se na doçura emanada dos seres que procuram respostas no imponderável, no exercício permanente da dúvida. É palmilhar terrenos africanos, árabes e asiáticos decifrando os milenares conhecimentos resguardados pelas metáforas do texto, em busca dos mais altos extratos do ser.

A Kansun não são prometidas as bênçãos póstumas dos céus, mas ele conquista o direito de escolher, pelo instinto do cão, sua face mais sublime, o seu jeito de viver. Emparedado e horrorizado pelos animais de sua fauna interior, pelos fantasmas do bronze de seu caráter, pelos mil punhais que o espreitam na floresta de suas sombras, ele procura o que não pode ser encontrado, mas deságua na pureza e no transcendental de uma conclusão forte e eivada de poesia, que cintila como os elementos naturais ali descritos.

Kansun sou eu, é você, qualquer espírito indócil que tenha sede de conhecimento, que ande pelo fio da navalha, saltando montanhas e engolindo nuvens como se fora algodão-doce. Ao tempo em que exalta a coragem, sublimina a fraqueza; a despeito do medo, mostra vigor e inteligência, mas, sobretudo, evidencia um cão-humano, supostamente frágil, que deseja decifrar os segredos da existência.

Na figura de um cão, Kansun pode ser um tigre, tão forte como o seu próprio algoz, ou um carneiro, ou o elefante de três trombas...

Kansun é como o brilho de uma lágrima, de alegria ou de dor.

Kansun, enfim, é o homem que vale a pena.

 
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