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J. B. Cenzi é remanescente dos Anjos de Calça Lee, aquela geração
sequiosa por descobrir um mundo novo, ligada pelos liames da espiritualidade. De certo que bebera os
liquens do Álbum Branco, dos Beatles, e se drogara nos mantras do Prabhupada Maharishi, na
viagem indiana e caleidoscópica que todos havemos percorrido nas décadas de
insubordinação.
Nesse tempo de lutas pelos direitos civis, pelas liberdades individuais que contaminaram o mundo,
sobreveio a cultura brâmane, budista, nas quais o pensamento e a filosofia se sobrepunham
às religiões. John Lennon pediu uma chance à paz e que os seres humanos
não se matassem e nem morressem, e que fossem banidas as religiões.
A new generation embarcou naquele comboio. E foi preciso ressuscitar Hermann Hesse com toda a sua
carga metafísica para que se pudesse assimilar os métodos filosóficos orientais -
vai daí que Kansun guarda semelhanças com Sidarta, o peregrino de Hesse, prêmio
Nobel de Literatura.
Nesse mesmo compasso e tempo fulgura o médico inglês Cyril Henry Hoskins, de alcunha Lobsang
Rampa, desvendando A Terceira Visão. Através dela foi que Rampa descreveu os grandes
êxtases espirituais a que o pensamento e a meditação podem levar. Milhões de
livros foram impressos naquela ocasião de busca incessante pelas bem-aventuranças,
que não raro se transformaram em catarses individuais.
Quando Kansun viaja, transmuta-se e aceita passiva e humildemente os grandes desafios da vida; é
o próprio autor que se revela no papel do andarilho, tirando proveito de suas próprias
experiências e dos delírios comuns aos sensitivos, entendendo que a existência é
uma eterna garimpagem do ser. Até mesmo quando não tem para onde ir, ou onde chegar.
Entretanto, o comportamento de Kansun não é contemplativo e nem transcedental. Embora
represente a sociedade animal e seu estado de pureza, se contrapõe com determinação
ao modernismo consumista, conflituoso dos humanos, que não perdeu a sua condição de
violento e bélico. Se as sociedades primitivas também eram voltadas para as conquistas,
as lições de Kansun se aplicam melhor aos dias de hoje, quando o planeta se vê
encurralado pela degradação ambiental e depauperação dos costumes.
Kansun é uma violeta que surge na literatura nacional, com suas cores fortes, exatas, apenas o
suficiente para encantar. Não é uma obra superlativa e nem tende ao pedagógico,
já que no seu conteúdo, os exemplos contidos é que prendem o leitor, da primeira
à última página. Não foi feito com a intenção das
glórias mundanas, senão que para expulsar o grito retido por tanto tempo na garganta.
E para explodir com toda essa grandeza, foi necessário viajar pelas complicadas ravinas do
espírito, sugar as mitocôndrias da carne, atravessar os rios caudalosos, para que o
resultado fosse próximo, tanto quanto possível, de um testamento existencial.
J. B. Cenzi traz uma nova forma de comunicação escrita: a beleza desde o seu
núcleo mais simples e luminoso, sem ranços e nem sotaques de falsa erudição.
Embora se trate de um estudioso, Cenzi prefere as narrações moldadas na tradição
oral, como o contador de histórias que a gente pode ouvir a noite inteira sem qualquer cansaço.
Tem algo de Sherazade, algo tão poético quanto a vermelhidão seca do nordeste da
Patativa do Assaré, ou reluzente como as canções de Cora Coralina. Como romance
ambientado em região imaginária, sua mensagem deixa transparecer que o cãozinho
não tem pátria. Trata-se de um peregrino, que com suas descobertas quer fazer o mundo melhor,
pelo pacifismo, temperança e o amor melhor dimensionado a estender-se pelas gerações.
Jornalista Itamar de Oliveira |
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